Sunday, November 01, 2009

Sobre nós


É esse estranho jeito que levamos a vida, que tem nos matados. E morrer por aqui, é apenas virar estatísticas que vão florear jornais que amanhã já estarão velhos. Morrer então, não é nada. Mas é esse estranho jeito de viver, de rir, de interagir, de observar, que esta nos matando. É esse estranho jeito como a modernidade avança, sem que nossa mente consiga acompanhar. E a gente se pega rindo de coisas pequenas, de coisas imbecis. E eu fico pensando que foi se o tempo que rir, era coisa de gente inteligente. Hoje se ri por qualquer coisa. Rimos de um esquizofrênico que fala; Ronaldo. Rimos de “humoristas” que vão ao planalto central expor “toda indignação do país“, com nossos políticos de hoje. Rimos das respostas rápidas de Paulo Maluf. Rimos de um pseudo artista de televisão ao ter um surto de raiva em um reality show. É, rir ficou fácil, esculachar também.
Esculachamos e até humilhamos mulheres como Carla Perez, por que só burros riem da ignorância. Rimos quando “humoristas’ vão as praias expor mulheres fora do padrão de beleza, para que elas sejam a musa da beleza interior. Porque gente “feia’ é mesmo de gargalhar. E mulheres bonitas é para se jogar pedra. É claro que isso não vem de hoje, se não, Chico Buarque não iria ter escrito a historia da Geni, lembram? “Joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, maldita Geni!”. Mas no fim da música, quem salva a humanidade, é a própria Geni.
Foi a primeira associação que veio a minha cabeça, quando soube do que tinha acontecido na faculdade particular UNIBAN, na última quinta-feira. Cerca de setecentos alunos, homens e mulheres hostilizaram uma aluna, por usar um vestido curto. A mobilização foi tamanha, que ela precisou ir embora escoltada por PM’s. A modernidade foi usada para que alguns alunos filmassem tudo o que aconteceu e colocassem no YouTube, talvez para mais algumas risadas, ou talvez para que questionemos esse nosso estranho modo de viver.

Antes de qualquer coisa, parto da seguinte opinião; nada, ABSOLUTAMENTE NADA, justifica tal acontecimento dentro daquela universidade. Vi uma reportagem em que alunos e professores tentavam amenizar a culpa dos universitários pelo motim dizendo que ela “pediu” para chamar a atenção. Por isso, não pode reclamar do que houve. Engraçado que não eram só homens hostilizando a aluna da UNIBAN, mulheres enfurecidas também a xingavam de puta, recatadas dentro de suas roupas largas e longas, sofridas, machistas, invejosas talvez. E muitos dos homens, excitados, pediam aos berros; ESTUPRA!
Hoje somos qualquer coisa; trabalhamos por qualquer salário, matamos por qualquer desacate, rimos de qualquer merda, fazemos sexo com qualquer pessoa, nos expomos sem qualquer cerimônia, enfim, estamos para qualquer jogo. Foi quando mesmo, que a vida perdeu a graça? Foi no mesmo dia que o machismo ganhou formas e caras novas, foi quando o moralismo fascista criou raízes, sem que eu possa ascender um cigarro de baixo do toldo de meu buteco preferido. Foi no exato momento em que paramos de nos levar a sério, paramos de acreditar no mundo em que vivemos, na política, no preço das coisas, na rapidez das relações onde não temos mais tempo de perguntar, como estamos. E ai, como estamos?
Estamos todos doentes.

4 comments:

J.L.Tejo said...

Alguém (não me lembro onde), ao ver a cena na tevê, disse ter pensado inicialmente se tratar de uma rebelião em um presídio. Mas não era nada disso: eram os alunos da UNIBAN acossando uma colega de classe.

Mas poderiam ser mesmo detentos, naturalmente. Afinal, perseguir, em turba, uma moça, clamando por estupro e linchamento (moral, que seja), é coisa de delinquente.

O pecado da moça foi estar de minisaia. Reparem bem: isso no país do turismo sexual, das mulheres-fruta e do carnaval. Que tipo de hipocrisia é essa? Cadê o "simancol" dessas pessoas? A pessoa que ri dos quadros machistas do Pânico é a mesma que chama a moça de puta.

Pra mim, é evidente que a fama de liberal do brasileiro é mentirosa. Somos recalcados, hipócritas, conservadores. Como o maior país católico do mundo que somos.

Agora, isso do nosso estranho "jeito de rir" é verdade. Impera é o "humor" do Pânico: o humor do deboche, do escárnio, da falta de respeito, dos anônimos e famosos humilhados (a palavra é essa, humilhação) pelo Repórter Vesgo.

É claro que o Pânico é só um exemplo, um símbolo. A questão é complexa, de fundo.

Nelson Muntz said...

A-Há!

Esse sim é o melhor humor.

-Bebel escreve- said...

tEJO
Concordo com você.
A única coisa que eu diria é que
não necessáriamente todo detento é delinquente.
Agora, esses alunos, são com certeza todos criminosos.


e digo mais, nelson;
RÁ!...quer dizer
A-HÁ

J.L.Tejo said...

A única coisa que eu diria é que
não necessáriamente todo detento é delinquente.



Verdade absoluta. Assim como nem todo delinquente tá em cana. Muitos até ocupam cargos respeitáveis.