Sunday, September 20, 2009

Grajaú 422

Subia no ônibus, um homem que tinha uma língua roxa, igual daqueles cachorrinhos chow-chow, mais uma mulher loira que me lembrava uma beterraba. Uma vez eu abri uma beterraba e tinha um monte de bichinhos dentro. Coisa que a gente nunca vai imaginar é topar com uma dessas pela frente. Subira no ônibus um homem que acabara de sair do avião. Eu sei. Eu sei porque vi a mala dele, era uma daquelas que sofrera uma viagem de avião. Eu sei porque o aeroporto estava logo ali do lado, mas o ônibus andou com o motorista cantarolando "veja, essa maravilha de cenário" e o cenário era o morro pintado de verde que algum prefeito canalha, desses que se tem por aí, mandou pintar para dar uma dichaavada. Minha mãe vai corrigir isso aqui, não vai saber o que é dichavar. Entrou no ônibus uma mulher com um vestido curto, muito mais curto que os meus vestidos curtos e logo baixou o rosto e dormiu. Passamos por milhares, sim, milhares de ruas e o Rio de Janeiro foi se misturando, a Cidade Maravilhosa confundindo com moradores de ruas que dormiam bem pertinho do sambodrómo, veja bem, ainda não é carnaval. Mas as musas, hoje globais, desfilam seu corpo de drenagem linfática nas escolas de samba e lá do alto já se vê. Nunca seremos iguais a elas. Mesmo que compremos revistas que prometem perder cinco quilos em quinze dias. E bem próximo dali, pertinho de um córrego, famílias lavavam roupas. Sujas? Não sei. E o motorista então falou: imagina só, cara, hoje falei pro meu filho: papai trabalha de domingo, olha só que merda, muleque. E o muleque foi ao jogo, a Leopoldina, ao raio que o parta, ao caralho a quatro, tudo sozinho. Vejam essa maravilha de cenário. Passei no sopão 95, estava ali na frente do Varandella, mas estava fechado. Fui parar em Vila Isabel. Não era esse meu destino, mas a cidade foi se tranformando. Logo, eu também. Como num lote, numa pesca longa de um barco que gera o tédio necessário para o pescador. As curvas eram a perfeita pacificação entre mim e o tempo. Hoje eu dormi tarde, hoje eu comi de manhã. Hoje desceu do ônibus uma mulher com os cabelos feiosos. E eu olhando pela janela vi uma camisinha no chão. Penso como teria sido aquela foda. Logo mais chego em casa, pensei comigo. Passei do ponto, na medida do impossível. Hoje é domingo, estou pela manhã. Quero uma casa em Laranjeiras? Quero continuar acreditando na Tijuca. Passar pelo Grajaú, rodar para achar o contrafilé perfeito. Virar amiga do Moa e me embotecar por aí. Fumar dentro de estabelecimentos que proíbem meu cigarro. Tenho que ir embora deste ônibus. Mas, eu prometo, é só desta vez.

1 comment:

J.L.Tejo said...

Passou perto da minha casa. Que viagem, hein? A cidade dá tema para milhares de crônicas- para o bem e para o mal.