Thursday, August 14, 2008

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.


Drummond

3 comments:

Nelson Muntz said...

É muito injusto esse Deus
Que fez-me humano e não árvore.
Mais cruel que injusto
porque fez a mim e a árvore,
para que pudéssemos comparar-nos.
Mais sádico que cruel
porque deu-me poderes de árvore.
Como homem, posso dar frutos e flores
e fazer sombra aos namoradinhos.
Mas o melhor de ser árvore
ah, isso ele não me deu.
De que me serve ser homem
se não tenho raiz e não aprendi
costurar histórias na terra?
De nada me serve...
Irônico, deu-me pernas e voz
e, cheio de maldade, fez-me
as pernas menos ágeis que as palavras
e estúpido, deu-me o desejo de ser árvore.
Se de bondade fosse
teria plantado-me num canteiro silencioso
imóvel e distante dos olhos.
Mas, tenho pena de Deus.
Se fez-me humano e não árvore,
foi porque ensinou-me a amar,
sem conhecer o amor.
Ele jamais teve a pressa de amar
e jamais pensou nas infinitas dores
de um passo após o outro.

-Bebel escreve- said...

UAHAUHAUHAUAH
Nelson, o poeta do A-HÁ

Duff-Man said...

Só tem bêbado aqui...