Thursday, December 25, 2008

"Os pinheiros assobiam, a tempestade chega:
Os cavalos bebem na mão da tempestade.

Amarro o navio no canto do jardim
E bato à porta do castelo na Espanha.
Soam os tambores do vento.

'Overmundo, Overmundo, que é dos teus oráculos,
Do aparelho de precisão para medir os sonhos,
E da rosa que pega fogo no inimigo?'
Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante,
Que anda, voa, está em toda a parte
E não consegue pousar em ponto algum.
Observai sua armadura de penas
E ouvi seu grito eletrônico.

'Overmundo expirou ao descobrir quem era',
Anunciam de dentro do castelo na Espanha.
'O tempo é o mesmo desde o princípio da criação',
Respondem os homens futuros pela minha voz."

Murilo Mendes
(Poesia Liberdade-1947)




Ninguém amparou meu cavaleiro quando ele surgiu doente. Se eu descobrisse, me mataria. Me atiraria do prédio, para sempre. Para ir, indo devagarzinho embora, junto de ti. Mas acontece que eu descobri, e não me matei. E o que se seguiu foi muito esquisito e eu bem, eu também, sou bem esquisita. Quando vivi uma novidade, era ele. Meu cavaleiro adoentado, indo embora e eu não saberia dizer, adeus meu velho, adeus. Eu não soube fazer visitas, eu não soube evaporar as angustias e dizer para você que tudo ia ficar assim, ou assado. Pois eu não sei de nada. Eu tinha um medo terrível de te ver enforcado pela vida, daquela janela escrita. Eu não era parte daquela nuvem da qual pensei em me atirar quando você descobriu que tudo estaria definitivamente diferente, para sempre.

Tudo isso para dizer que eu ganhei uns olhares e perdi tantos outros com a sua ida.
Sabe, na verdade, você foi embora me ensinando a temperar a vida.
Mas me tirou de mim mesma.

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