Wednesday, October 04, 2006

crozera

-sobre reforma e espelho-


Fazia tempo que ela queria reformar o quarto. O quarto que ainda mantinha seus pudores adolescentes e onde mais tempo ela costumava ficar quando estava em casa. E sabe, muitas vezes ela estava em casa. Pensou em pintar as paredes, colocar um lustre bem chique e outro bem hippie para dar um contraste que em verdade era tudo muito ela. Queria tirar dali tudo quanto era escrita, e frases já superadas de outras fases. Queria por mais prateleiras, queria dormir cercada de livros, talvez uma coleção inteira de Vinícius, ou Gullar queria por novas fotos e tirar velhos recortes de um armário abarrotado de roupas. Queria que seus olhos tivessem uma solução, ao invés de colocar a televisão tão pertinho do rosto, mas tão pertinho que ninguém acreditava como ela conseguia assistir e viver com o calor daquele aparelho em seu rosto, o que de certo lhe dava a medida do tédio. Queria também por cortinas pretas, bem pretas para que o sol não invadisse como ele sempre tem feito ao longo desses anos, apesar de que isso nem de longe chegou a ser um grande incomodo. Queria um quarto maior, quem sabe um banheiro só dela também. Queria uma rede preta, uma vez lhe falaram da tal da rede preta. Ela lembrou de quando era criança e perguntou pro moço que vendia redes, se ele tinha da cor preta. O moço rio da cara dela e anos mais tarde a tal da rede preta apareceu muito longe dali, mas ela já se deu por satisfeita ao saber que o vendedor de redes estava sendo um pretensioso ao rir do pedido dela.
Mas as pessoas riem, elas acham totalmente engraçado muitas coisas; meu quarto,meu jeito de falar, de vestir e dizem num tom bem blazê : “ai só você mesmo,viu” e a menina um pouco se importa sim,afinal ninguém é de ferro.


A gente podia parar um pouco, né?
Fazer com que certas coisas voltem de um jeito bem sutil quando vão pra voltar, de novo.
A gente sente muito. Eu sinto muito.
Outro dia mesmo eu estava comendo, sentei na mesa o almoço estava lindo,todo colorido bem ali e não foi nada real. Eu explico: eu estava com o garfo e faca, uma faca bem afiada que serve pra cortar carne, então foi ai que algo me chamou atenção na televisão e como ela estava bem baixinha sei lá eu por que, eu me aproximei dela para ouvir melhor a notícia tão importante que agora nem lembro mais. O fato é que quando voltei para terminar a comida, sentei na cadeira e não entendi mais nada. Nada mesmo, olhei primeiro pra faca, depois pro garfo e não consegui se quer imaginar o que aqueles dois braços estavam fazendo segurando tais talheres. Então olhei pra comida e tentei supor quem estava comendo aquilo, e era eu mesma. Eu sabia, mas não conseguia sentir que eram aqueles meus braços que manipulavam aqueles talheres que cortariam a comida que entraria na minha boca. Até a boca não era minha, os dentes muito menos. Meu estômago parou de querer aquilo. Larguei os talheres dei um impulso pra trás num ato de susto e medo.E meu coração disparou se cagando de tudo isso.
Dizem assim; eu tenho desrealização. Não me pergunte como isso acontece, o porque disso acontecer, não me pergunte o que eu não sei.
Mas o fato é que desde de pequena eu confronto o espelho desta maneira injusta. Eu olho, olho, olho bem fundo e não acredito que aquela imagem que ele reflete é minha, então eu pulo e faço gestos e tenho vontade de quebrar num soco porque eu nunca consegui sentir uma única vez, que ele de fato me refletia. Isso é um prato cheio pro meu psiquiatra; ele adora a acha até poético o jeito que eu defino minhas emoções e sensações pra ele quando vou ao consultório.E eu adoro ouvir que mais gente também tem isso. É um alivio saber que lá de dentro do meu quarto, aquele mesmo, que precisa ser reformado, eu não sou a única.
E as pessoas, essas mesmas que riem e que falam que só eu pra fazer tal coisa, onde elas se escondem quando sentem medo? Eu sou do tipo fácil, fácil pra sair correndo com dois megafones dizendo que eu to com pânico, que eu sou a louca da vez.E as pessoas acham bem bonitinho.Mas e elas? Eu quando vejo alguém centrado e organizado fico toda boba admirando como tal pessoa consegue levar esse tipo de vida. Acho realmente lindo. Acho bem bacana uma coluna retinha que acorda as sete da manhã, que trabalha desde de os 16 que já namorou 3,4 vezes.E que sabe a hora de ser paciente.
Já a minha cabeça parece uma anarquia. Todo mundo ali dentro faz o que quer, e principalmente todo mundo ali dentro adora pensar, pensar, pensar e não agir. Eu fico puta da vida com todos eles, fico toda hora relembrando que existem coisas a terminar, horários e pessoas que não podem ficar na mão, por minha causa. Mas eles são uns egoístas. Fazem somente o que querem e quando querem. E sofrem por isso também:

Tem vezes que minha cabeça para.
Para ou entra num surto. E eu fico angustiada com quinhentos mil pensamentos transtornados a toda hora. Tais pensamentos, afobados pra saírem da minha cabeça fazem do meu corpo uma vitima fatalíssima e então eu não me suporto sentada, ao mesmo tempo em que toda a luz e as soluções aparecem como uma descoberta na velocidade da mesma. e depois vão embora sem deixar rastro algum. Então o medico diz; toma um calmante quando for assim. E eu resisto a isso. Pelo meu próprio pensamento eu resisto. A gente passa a vida inteira procurando o sentido de ser quem é e o porque de acontecer tais coisas com a gente e eu sou nesse assunto, sou uma grande pensadora. A todo momento estou interrogado e botando a vida na parede pra ver qual que é.e me parece que esses meus surtos, que a gente aqui na terra chama de síndrome do pânico,tem todo um sentido pra mim. Como se com a vinda dele, eu renascesse de novo em alguns pontos que morrem durante o cotidiano normal de acordar cedo e ter a coluna reta. Mas mesmo assim eu sofro em telo e é claro que eu não gosto de sofrer, pelo ao contrário eu odeio. Mas mesmo assim no fim do túnel tudo o que me acontece, e já me aconteceu tem uma cara de vida vivida, e sabe, eu não posso mesmo encobrir a beleza disso.

2 comments:

sofia said...

puta texto, bel

é claro que vc é muito mais do que "ah, só vc mesmo, né?". isso é coisa de quem não te entende ou não sabe olhar pra fora de si.

no mais, o negócio é procurar a paz. que a gente nunca encontra, mas a busca dela tranquliza por botar a gente num objetivo. eu acho. é o que eu tento. e é isso aí: em frente, até de manhã.

beijão

Worm said...

eu fico boba com alguns textos seus.
impressionante.