Wednesday, June 09, 2010
Mar e ela
E seguia, como se nada na lida, fosse nada da vida. Ao sentar, tomando sorvete num calor de matar; sorria. Que alivio doce, suspirava. Depois tomava água. Ajuda a digerir, comentava. Então saia larga de desejos sem fim a passear pela Cidade de São Sebastião. Um dia ainda me caso com ele. Com quem Mariela? Eu perguntava indagado. Com ele, oras! O Sebastião. E eu ria de suas conclusões e vontades sem nexo que surgiam de tempos em tempos, quando ela ficava por três minutos, muda mudinha. As vezes chorava do nada eu me achegava; porque choras, Palominha? Ela sorria. “Não estou sofrendo, acredite. Choro sorrindo e as vezes choro triste, triste. Mas não sofro. Choro porque quero ser como o mar.Você se lembra quando fui morar em Minas Gerais? As vezes, quando fazia muito sol, eu tinha saudades do mar. E então chorava para sentir o salgado das lágrimas, assim eu lembrava de todas as vezes que mergulhava em Copacabana. Quando eu era pequena, achava que os mortos que empurravam as ondas, todos juntos e por isso que elas vinham tão fortes e grandes, porque são muitos mortos já. Não sei o que penso hoje. Eu sempre quis ser sereia, depois ficava em baixo da escada imaginando ser secretaria de uma grande empresa internacional. Já quis ser veterinária e astrônoma, só porque era lindo o nome, e é lindo se interessar tanto pelas estrelas a ponto de transformar isso, em profissão.”
Eu a olhava tanto e se chegasse mais perto de seu rosto, podia ver o brilho no olho. O olho querendo ser mar. e o hálito de baunilha que não me deixava mentir que aquele tinha sido um caloroso domingo de verão.
Na volta pra casa, ronronava em meu ombro e depois, cheia de sono me dizia; vou sonhar com você. Vou sonhar que deitada em seu peito eu consiga lhe dizer tudo que sinto. O quanto de você que já esta em mim. E tanto de mim que dei a você. Se você tivesse, e no meu sonho teria, coragem de ouvir.
Boa noite meu amor.
E assim, Mariela serrava os olhos cheios de água do mar.
Monday, May 24, 2010
Um Lamento Para Mariela
ficou em meu paletó seu perfume e meus desenganos
Hoje, sou um quadro empoeirado
Homem frio, destemperado
Xingo ela todo dia
“Aquela vadia”
E depois caio em prantos
Leviano
Passei a fumar os cigarros que ela fumava
Quando de noite,ela de calcinha, suspirava em fumacinhas
Olhava pra mim e ria
Vadia, vadia
Eu dizia a você Mariela
Só não me senta na janela.
Me da um medo, uma aflição
E você não me ouvia, vadia, vadia...
Inda pensei comigo
Se você se espatifa no chão Mariela,
Quem vai cuidar da minha otite?
Algodãozinho, azeite quente...
Você foi fria
Foi cretina
Eu te avise Mariela,
Meu único medo,
Era você nessa janela.
Thursday, May 20, 2010
Mariela
Minha dama de azul marinho. Nunca vi alguém gostar tanto desta cor....aquela ingrata só tinha sutien, calcinha e meias azul marinho. Andava e cagava quando usava algo mais transparente e seu sutien de aeromoça aparecia. Foi assim que a conheci. Mariela. Tinha esse nome porque a bisavó decidiu. Consagrou-lhe as maiores ameaças, caso a moça, ganhasse outra graça. Cisma mesmo. O pai não achou bonito nem feio, sua mãe não queria contrariar a avó e assim nasceu, no bairro de Fátima, Mariela azul marinho, minha pombinha. Ela emputecia se eu a chamasse assim. Diziam que pombos eram ratos alados, transmissores de doenças e tinham ruídos horríveis. Foda-se, eu dizia. Você é minha Paloma. Então a maldita sorria. Polomba podia. Mariela achava que os pombos espanhóis eram mais dignos que os da praça xv, eu morria de rir.
Pombos, oras bolas, são todos iguais. Prefiro palomas, ela falava. Depois me dava um beijo e saia sorrindo para o curso de inglês. Essa merda de curso esta durando. Deve ser as horas que Mariela passa na Lan Hause do Largo do Machado. Depois pego ela comendo uma esfiha de carne. “Como é cara a esfiha daqui!” Reclama. Mas sempre come, para a alegria dos marmanjos que lhe atendem com um bom humor do qual nunca desfrutei. Mariela é a sensação da galeria Olido. Eu mordia os lábios e andava firme a parecer que levaria numa boa os olhares tarados daqueles descendentes de árabes fazedores de esfiha. Depois voltávamos pra casa com Mariela pronunciando palavras novas que aprendera na aula. Table, cake, hause, paper. Porra, ela não calava a boca.
Já em casa, a primeira coisa a fazer era tirar os sapatos, as meias e dar um berro que até me causou encrenca com a vizinha. Ela simplesmente gritava na porta de casa. (Não havia argumento que lhe podaria, ela dizia que o lance do berro é uma tática, técnica, japonesa para deixar a energia pesada do lado de fora da casa. Diz que aprendeu quando freqüentou por duas ou três vezes aulas de tai chin xan no aterro do flamengo. Mariela logo desistiu pois as aulas começavam pontualmente as seis da manhã; “só velho acorda tranquilamente a essa hora!“ Resmungava.) Depois, ia pro banho com o habitual radinho de pilha onde Mariela se dava o prazo de quatro musicas para terminar de se lavar. Dizia ela que era sua receita de economia ; logo mais a água do mundo vai acabar. E você sabe qual vai ser o primeiro lugar onde os EUA irão invadir, não? Meu filho, vai ser a terceira guerra mundial. Igual eles fazem La no Iraque, por conta do petróleo. E assim, sofisticada a seu modo na política internacional. Mariela sentava com os com o jantar nas coxas, cabelos molhados e assistia ao Jornal Nacional. Fazia um comentário ou outro, mas gostava mesmo quando Arnaldo Jabor falava. Ria alto e dizia; esse cara é foda! Gesticulava e olhava pra mim, com aqueles olhinhos pretos feito azeitona portuguesa. Só depois que assistia a novela, Mariela era toda minha. Principalmente se era terça-feira e passava aquele programa, Casseta&Planeta. Ela se levantava da poltrona e dizia; gente! Será que só eu não acho graça mais nesses caras? Eu a entre olhava sem responder. Então ela vinha de mansinho se sentar a mesa comigo. O que você esta fazendo? O de sempre pombinha...Hunf, ela respondia. Vamos pro quarto meu bem, lá tem o de sempre também. E ria safada indo em direção ao quarto sem olhar para trás.
Mariela sabia que eu jamais iria me perder no caminho.
Tuesday, May 04, 2010
zó pra constar
Dizem que ela tem amores demais
Mas quando passa e sorri parece tão sozinha
Que eu chego até a pensar
Que ela possa querer meu carinho
Sei que as histórias que contam
Não passam de intrigas
De quem não aceita
Seu jeito de ser e viver a vida
Quando ela some me desespero
Grito seu nome, faço canções
Mas não tenho o poder de mudar seu destino
E nem quero
Paulinho da Viola
Sunday, April 04, 2010
Thursday, March 25, 2010
Ainnnn...
que a gente se espichar
com os pés no sofá
sem ter nada a fazer
e relaxar,
se acomodar,
ficar no bem-bom
ouvindo um som.
Você vai aprender
é só se acostumar
a ter o que quer
sem sair do lugar,
melhor se houver
mamãe, babá, garçom
prá lhe servir filet
mignon.
Quem já fez
bem sabe como é bom
deitar no chão, ler um gibi, comer bombom.
Ouvir alguém
a recitar Drummond
à meia luz,
a meia voz,
a meio tom.
A gente sem querer
começa a espreguiçar,
o corpo esticar
a cabeça a pender
o olhar pesar
a boca se abrir
e não dá mais prá reagir.
Agora eu já nem sei
tanto falei que deu vontade
de dormir...
edu lobo e pcp
Tuesday, March 23, 2010
G.Rosa
Monday, March 22, 2010
Napolitano
Pintei minhas unhas de verde e acabei de ver Mel Lisboa falar para Felipe Camargo que ele parece um urso gostoso. Nojinho.
Agora vou dormir já que filmes nacionais de qualidade inferior me dão urticária.
Adios, amigos.
Sunday, March 21, 2010
Blé
algum sucesso. Ou isso mesmo eu deduzia quando alguém tecia um glorioso elogio a minha pessoa.
Mas o tempo passou e eu não virei a expectativa, porque eu não virei, coisa alguma. E morro de medo de meu jeito inseguro, te sufoque. Eu me sufocaria. E quando eu lhe conto que já passei por poucas e boas por conta da minha cabeça bamba, você ri e até tira um sarro e eu entro na sua brincadeira porque não ha nada melhor do que rir do fato de já ter passado por psiquiatras, terapeutas e afins. E morro mais de medo porque não sei o que fazer da vida e preciso fazer alguma coisa que lhe mostre o quão eu sou também inteligente, independente, igual as pessoas engajadas que você admira.
Mas sabe, isso nem é de todo mal quando eu paro para pensar em uma frase vinda de algum lugar, que é mais ou menos assim; “deus me deu um grande amor, porque eu mereço"*. E se você me faz tão feliz, se eu te faço tão feliz também, quero crer que é porque merecemos. E que nunca, jamais eu te faria algum mal. E que minha sina parece que encontrou um lugar muito do aconchegante pra adormecer, igual eu quando me deito no seu peito e te beijo agradecendo em silencio o homem que você é. Agradecendo poder dar muitos beijos, desses que eu sempre lhe dou, quando tenho ar.
Por fim, penso que
Deus me fez de uma forma cristalina com a condição que seus olhos pudessem julgar.
*
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde
Drummond
Tv Junk In Your Trunk

Pensar que Cazuza e Pedro Bial eram amigos de infância, me dói. Tava vendo agora os especial da Globo (TV aberta é pros fortes, meus caros), que aliais, é bem melhor do que o filme sobre a vida do cantor, e lá o jornalista, hoje apresentador do BBB, da alguns depoimentos, entre eles, um que diz que Cazuza sempre foi mais inteligente que ele. Ah, não tenho dúvidas. Eu curto o Cazuza. Acho que todo mundo pode reclamar, até a classe média. E porque não? A vida não é um tédio? Mas o Pedro Bial...hoje mesmo li algumas matérias ( é esse o nome que damos as notinhas que os sites de “notícias” colocam no ar?) sobre sua entrevista na Revista Rolling Stone, e fiquei com uma vontade imensa de não comprar a revista. O Bial irrita. E tem um povo que tem raivinha dele porque hoje ele apresenta o BBB. Mas porra, antes ele apresentava o Fantástico! Ele não regrediu em nada minha gente. Mas Bial irrita também porque tem a capacidade de acreditar que intelectualizar o BBB pode o salvar da “vergonha” que é apresentar um programa sem qualidades. Mas a tentativa é tão fracassada que a gente tem ataques de vergonha alheia durante seus discursos nas terças feiras, ao anunciar que vai deixar o programa. Aí é louco porque fica tudo muito engraçado. O programa ridículo, o apresentador a altura e o diretor do programa, mais patético ainda. Já disse e repito; TV aberta é para os fortes. Para os fortes, e para os fracos de bolso. Mas mesmo assim, ter um canal por assinaturas, é poder ver, sei lá, Oprah ao invés de Márcia. E mais alguns documentários desinteressantes desses que fazem sobre o fundo do mar.
Pedro Bial apresenta o BBB, Fernanda Lima apresenta o por toda minha vida, já que o programa dela sobre sexo, não durou nem dois meses. Ana Maria Braga, fala todo dia com um papagaio na rede aberta, Xuxa não bate mais em baixinhos? Angélica apresenta o Passa ou Repassa do Vídeo Show. Jô Soares fala sozinho as onze e meia. Patrícia Poeta é jornalista, assim como Mauricio Mattar, é cantor. Do mesmo jeito que Rodrigo Hilbert, Reinaldo Gianecchini, Paola de Oliveira, Marcio Garcia, e todo o elenco da Malhação, são chamados de atores. André Marques é o futuro Faustão. Sonia Abrão é a eterna malufista que passa o programa inteiro lendo revistas de fofocas e Pânico na TV tira um sarro que já não é mais engraçado. Hoje toda famosa é atriz, modelo, apresentadora, jornalista e passista de escolas de samba. Pura tradição.
Ah...eu amo a TV aberta!
Wednesday, March 17, 2010
você de novo
Mas é quando, ao oposto disso, se pisa firme. E não se orgulha de pisar, pois sabe que não fez mais nada que a obrigação. E o quão é difícil tomar a decisão de encarar dar mais que o primeiro passo. Quando eu sento e choro, sem culpa é neste momento que você entra. Você entra e completa um quadro negativo. E me tira de minha mais pura clareza, colocando palha para disfarçar o buraco que vou cair. Que é quando eu caio, sento e choro e faço um drama impossível. Quem vê de fora não saca a premissa. E eu me lavo de lagrimas pensando; me acuse de todos os crimes possíveis, menos os que eu jamais cometeria. Pois são os que eu não cometo, que eu escolho a dedo não cometer. Os outros, cometidos, são frutos de uma covardia de abrir a janela, me enxergar adulta, ser impulsiva, me almejar instantânea. Mas desses, você não me acusa. Pois também os comete. Se somos iguais, até que ponto eu lhe incomodaria?
Friday, March 12, 2010
Adíos, Glauquito...

Glauco era dos nossos. Dos meus.
Daqui do Rio, lendo sobre a morte dele, penso que mataram uma saudade.
Quando me bate saudades da minha cidade, penso na feirinha boboca que rola todo domingo em frente ao Masp, penso no silêncio do aeroporto de Congonhas, onde meus pais me levavam para passear e comer algum doce, tarde já da noite. Penso nos patins, na minha vila, no cine Jamor, no teatro João Caetano, comida de vó, risada de mãe, Boris, o cão, Real bar e lanches... amigos paulistas. Tirinhas, meus pais rindo das tirinhas, minha mãe rindo da D.na Marta, meu pai ria do Geraldão, meu irmão desenha bem pra caralho. Nós quatro comentando o quão genial eram Los três amigos... enfim. Hoje mataram uma saudade.
E como disse Galhardo: o mundo acordou mais xarope.
Concordo... vai entender.
Saturday, March 06, 2010
* *
esperando por você na estrada vazia.
E então, ela não seria vazia.
Se pela sua espera eu criasse viços.
E se a sua espera, eu compusesse traços.
E te esperando, eu criasse força.
E de tanta força, viessem asas.
E se te esperando eu resolvesse sentar.
Se o calor me queima, se eu tenho sede;
Se as asas quiserem voar.
Se eu te esperar e te esperando, virasse outra.
Como em uma metamorfose.
E eu acordasse bandida.
Você passaria pela minha estrada.
Se eu já estivesse cansada, sentida, ofuscada.
Asas para dentro, alma fora.
Se eu te esperasse em plena chuva, depois secasse.
Se eu tivesse fome, mas mesmo assim, te esperasse.
De certeza que estas vindo, morreria.
E se dormisse eu ia. Você passaria calado.
E isso é para não me acordar.
Se eu te esperando, mude muda,.
Se ao te esperar, um montão de coisas,
dessas malucas que passam pela minha cabeça,
fossem acumulando até somar.
Se você passasse na hora errada, eu não iria?
Você, por outro lado, também me esperaria?
Se eu te esperar inteira, inteira sua seria.
Se eu esperaria?
E se não, porque sentar na estrada vazia?
Friday, February 12, 2010
Um dom de André-É carnaval-
po...acabram de chegar 4 pessoas na minha casa
3 eu não conheço
Bel diz:
HAAHAHAHAHAHA
Sunday, February 07, 2010
Um dom de André-Domingo a noite-
eu to vendo pepe ou nenem no silvio santos
Bel diz:
HAHAHAHAAHAHAHAHAHAHA
Thursday, February 04, 2010
Clarice te mandou recado!
Monday, February 01, 2010
Um dom de André-sobre o calor carioca-
eu estou deixando meu corpo ficar no limite do cansaço pra q não ter de lidar com a humilhação de acordar suado
Bel diz:
HAHAHAHAHAHAHAHA

A gente meio que acaba por entender muitas coisas. A gente que eu digo somos nós, do lado de cá da ponte. Mais do que entende, a gente compreende. Porque, sabe, a situação não é fácil pra ninguém. A gente consegue entender algumas das raivas que vemos pingadas pela cidade, quando é madrugada. E enquanto os culpados dormem trancados, os inocentes se culpam para sempre. E, no entanto, a gente entende. E a gente é foda, porque entender não é apenas aceitar. Entender é ter uma visão maior, daquelas que só a poesia, a beleza da luta, nós dá. E a gente acha foda e a gente paga um pau. Mas, mais do que isso, companheiro, a gente entende. Mesmo quando a situação chega bem pertinho, a gente não culpa. A gente bebe, fuma mais do que o normal, mas não aponta. E ai de quem falar mal dessa gente, que a gente tanto compreende. A gente se revolta. A gente se entende. A gente se olha e balança a cabeça repetindo para sempre que tudo podia ser diferente. A gente bebe mais, e foge mais, mas sempre entende. Por que isso é um dom? Afinal, o que tem demais na gente? E a gente não liga se o mundo não entende, pois, pra nós, o que importa é a gente. A gente e todo mundo que a gente entende. Daí, então, também vem as melodias. E as músicas, muitas vezes, também vêm de gente como a gente. Essa gente que entende. E não se contenta em ver tanta gente, precisando de outras "gentes", para só ser. Só ser gente.
Mas quando o problema é com a gente, a gente não usa de meios decentes. Porque parece que a gente não se compreende. E se a questão é questão de gente como a gente, a gente não sente igual. E fica sempre, como todo mundo que a gente odeia. A gente fica inconseqüente. A gente não entende. E é quando a ferida arde, que a gente nem quer saber quem está na frente. A gente quer mesmo é sair no pinote, saber ser mais forte, bancar o inocente. Porque parece que a gente não sente. E é estranho olhar como a gente fica diferente. Se o erro é com a gente, a gente não quer nunca ser prudente. A gente quer mais é fuder com o outro escandalosamente. Para que vejam o quanto a gente é gente da gente.
E é nessas horas que eu odeio ser gente. Quando sinto que entender "gentes" é não entender da gente. E é nessas horas, que eu penso em toda gente, que mal vê o mundo em volta, antes de apontar para a própria gente. E, cheia de razão, atira a mesma pedra, que ajudou a esconder do parceiro. E é aí que mora o perigo. E é aí que a razão, justo ela, que se envolve com tanta gente, a razão nos torna gente de lá. E a gente de lá são eles que vão se sentar ao nosso lado e dizer com um tapinha amistoso: sabia que um dia você viria. Como se já esperasse a covardia de nossa gente. E, assim, se satisfizesse com a própria gente. E não importa o poeta bonito que você foi. Se quando gente do seu lado, que ousou na luta, precisar de gente e você foi displicente. E eu arrisco dizer até mais: muitas táticas, de lutas a batalhas de guerra, afundariam por conta disso. Falta mais da gente. Mais compreensão com a gente. Falta entender. Falta listar tudo que a gente sente. E não se sentir inocente, nem culpado. Falta a gente poder ser condescendente? Com essa, que a nossa própria gente?

